Cenários
Cenário Político do Concelho de Nelas
por Daniel Rodrigues*
Desconheço na realidade a maioria das conjunturas políticas existentes nos municípios portugueses, no entanto, ouso afirmar que a existente no concelho de Nelas será, sem dúvida, das que mais dores de cabeça dá aos políticos e aos eleitores. Com a questão da criação do município canense arredada de cena, e seguramente pontapeada para dias distantes, a gestão autárquica de dois povos tradicionalmente competitivos e adversários antevê-se cada vez mais complicada.
Após a significativa desilusão dos canenses com o volte face encetado por Luís Pinheiro, que sob a sigla do desenvolvimento de Canas de Senhorim tenta uma aproximação à CMN da qual os proveitos poderão ser considerados escassos, e respectiva desilusão dos nelenses pela suposta aproximação recíproca encetada por Isaura Pedro à Junta de Freguesia de Canas de Senhorim, comandada pelo MRCCS, que deu mostras de desentendimento ao longo do mandato; afiguraram-se no cenário pré-eleitoral diversas candidaturas à CMN em resultado do descontentamento geral dos eleitores (incluindo canenses e nelenses), e especialmente em Canas de Senhorim, uma candidatura independente à Junta de Freguesia que constitui a maior oposição ao MRCCS (que insiste em usar uma sigla à qual não dá uso).
Assim a diversidade está criada mas os cenários pós-eleitorais estão longe de ser resumidos e previstos.
Esses cenários pós-eleitorais que falo, são os que realmente tornam a gestão da edilidade das mais complicadas a nível nacional, senão vejamos:
1) Qualquer gestão camarária que fomente o descriminação positiva de Canas de Senhorim será alvo dos eleitores nelenses, bem como, qualquer gestão camarária que tenha Nelas por prioridade será alvo da ira do povo canense, um povo bairrista e que muitas feridas abre na autarquia, por fim, uma gestão camarária que aborda as duas vilas com igual prioridade irá concerteza gerar conflitos de ambos os lados, pois a questão central é que ambas as vilas requerem uma descriminação positiva por parte da autarquia, uma sob o cunho do hábito de desenvolvimento desenfreado à custa das restantes freguesias do concelho e a outra à custa de anos de exclusão política e financeira autárquica.
2) Uma gestão da coligação PSD/CDS antevê um cenário pós-eleitoral de boas relações com Canas de Senhorim caso Luís Pinheiro renove a sua posição nas próximas eleições, no entanto longe estará o consenso entre o povo de Canas de Senhorim, portanto não será esta a alternativa que apaziguará as terras, antevendo-se mais uma gestão vazia mas aflorada com toques de maquilhagem.
3) Uma gestão da coligação PSD/CDS com o CIM no poder de Canas de Senhorim, corre o risco de uma relação pouco frutífera, não tenha sido o CIM a verdadeira machadada no afilhado LP, o que tornará a gestão da freguesia complicada e a ameaça de cortes financeiros iminente.
4) Uma gestão do PS na autarquia continua manchada, para os lados de Canas, à custa dos seus antepassados, pelo que também será uma imprevisão a sua condução à frente da câmara, e se em Nelas poderia estar melhor lançada, esta candidatura tem pela frente o seu ex-comandante, o tão afamado José Correia! No entanto esta candidatura, ao lançar em segundo lugar um Canense, pode ter uma segunda oportunidade declarada até por canenses.
5) Se José Correia ganhasse, lá caía o carmo e a trindade, apesar da versão angelical e justiceira replicada actualmente pelo dinossauro, este cenário seria sem dúvida de animar as hostes. Vejo um lado positivo nesta possibilidade, o desencadear do processo de restauração do Concelho de Canas de Senhorim seria acelerado ainda que, tema, sob o cunho de um novo MRCCS.
6) Sexta e, não menos importante, (im)previsão. A candidatura de Vaz, um canense, se para nós canenses a vontade de ter os nossos homens na gestão da autarquia, com uma presença forte e declarada, seria imprescindível; para o povo de Nelas essa presença concerteza irá afigurar-se como uma gestão favorável a Canas e poderá obter poucos créditos. Esta talvez seja a opção que mais créditos pode dar a Canas de Senhorim, na eventualidade do CIM conquistar a Junta, a relação entre Vaz e CIM antevê-se produtiva.
Poderia discutir ainda mais situações que são passíveis de acontecer após as eleições autárquicas, todas elas baseadas no carácter das populações do concelho que teimam em ser irrepreensíveis e lutadoras. Qualquer gestão da autarquia será criticada e qualquer uma delas terá muitas dores de cabeça ao longo do mandato e difícil será aquela que consiga a recondução num futuro mandato. Tudo isto torna o Concelho de Nelas instável e incapaz de um desenvolvimento sustentado estando constantemente em rodopio e controvérsia política.
Na base de tudo isto estão questões que dificilmente serão resolvidas por qualquer uma das possibilidades de gestão:
1) A vontade do povo canense de ser concelho;
2) A vontade de Nelas de se assumir como a vila mais desenvolvida do concelho e atrair para si todo o investimento e mediatismo do “Coração do Dão”;
3) A vontade do povo canense de sofrer uma descriminação positiva ao nível do investimento camarário que é uma pedra no sapato de qualquer edil;
4) A pressão do povo de Nelas para a não-descriminação positiva para Canas de Senhorim;
5) O bairrismo dos Santarenses que não se excluem da luta pelo seu direito ao desenvolvimento no seio do município, alcançando um lugar de relevo;
Tudo isto para dizer de uma forma muito superficial que me preocupa o panorama político do Concelho de Nelas e que não se antevê estabilidade num futuro próximo. Quem perde?
Perdem todos os residentes no concelho, perdem todos os seus trabalhadores, perdem todas as suas famílias. Porquê?
Porque o desenvolvimento sustentado e equitativo do concelho que deveria acontecer em 4 anos, acontece na realidade em 12 anos ou mais e carregado de desigualdades e descriminação das suas populações.
O concelho de Nelas podia ombrear com o concelho de Tondela não fosse a gestão autárquica dos últimos anos escabrosa e baseada em pressupostos eleitoralistas, Nelas não pode olhar só a si própria como Canas na eventualidade de convivência futura no município terá que contribuir para uma relação produtiva e justa no desenvolvimento do concelho, desde que a gestão do mesmo se torne inclusa, igualitária e justa a todos.
* 26AGO2009, em http://masporque.wordpress.com/eu/
Artigos recentes 



