Entrevista a Rui Fonte
É Licenciado em Animação Socioeducativa pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra e pós-graduado em Ciências Documentais pelo
Instituto Superior de Línguas e Administração de Santarém. Actualmente, é coordenador e docente do Curso de Animador Sociocultural da Escola Profissional de Tondela e formador do Agrupamento de Escolas de Canas de Senhorim. Frequenta um Mestrado em Animação Sociocultural, na UTAD – Pólo de Chaves. Fez parte do Conselho de Redacção da Revista bilingue "Intervenção - A Revista de Animação Sociocultural". Já escreveu com regularidade para o jornal "Canas de Senhorim". É autor dos livros “Lado Oculto da Memória” (1999); “Fragmentos” (2001); “Horas Vagas” (2006) e “B.V. de Canas de Senhorim – Bodas de Diamante” (2007) e “Qualquer” (2008).
O livro agora editado é uma re-edição do “Qualquer” que escreveste em 1993?
Eu nunca cheguei a editar o “Qualquer”. Apenas tinha uma versão, escrita à máquina, que mostrei a alguns amigos. Deve ter sido o primeiro texto que escrevi, com algum método, apesar de copiar bastante nessa altura. O livro que edito agora é a continuação da história escrita há 15 anos. O leitor, virando o livro do avesso, tem oportunidade de comparar ambas as formas de escrita que, espero, ter evoluído.
Fala-nos um pouco da Narrativa do “Qualquer”. O que distingue o Rui Fonte do “qualquer”? Essa pergunta tem rasteira… A primeira parte do livro, que escrevi há 15 anos, é uma parte de mim, somada ao que vivi, ao que li, ao que copiei, ao que gostaria que a minha vida fosse e a tudo o resto que me rodeava. A segunda parte, a de 2008, é biográfica. Só biográfica. 90% do que escrevo é ficção. O “Qualquer” é mais depressa o leitor que o autor.
Qual dos teus livros publicados aquele que mais te realizou?
Curiosamente, o que ainda não escrevi. Derrotado estaria se me sentisse realizado com o que escrevo. Parava por ali, a contemplar as palavras. O que escrevo não me deixa realizado. Aliás, tem a triste sina de me deixar deprimido. Cada vez menos consigo ler o que escrevo. É como ver a nossa própria imagem num filme ou a nossa voz numa gravação. Quase nunca gostamos. Leio apenas quando escrevo e quando revejo, uma só vez. Pouco mais. Depois dou a alguém, para que o corrija por mim. Edito os livros, não porque me sinto realizado, mas sim para me livrar deles, para deixarem de me perseguir no dia a dia.
Qual foi aquele em que tiveste mais feedback dos leitores?
Penso que o primeiro. Foi a surpresa. Poucas pessoas, até então, reconheciam em mim um compositor de palavras. Pensavam que só era capaz de sublinhar os livros que lia, para decorar as frases e escrevê-las nos parapeitos das janelas da escola. Mas surpreendi as pessoas, creio. Peguei nas palavras de um modo harmonioso, até conseguir contar uma estória que as pessoas gostaram de ler.
Para quando um livro sobre o “nosso” Rossio de Baixo? Nunca te sentiste impelido a tal?
Tentei fazer isso, ao escrever umas cartas, na pele de Leonor, que trocava, através deste Jornal, com o meu amigo Ricardo Santos. Eu tenho a tendência de projectar tudo o que faço para um futuro distante. A ideia era essas cartas resultarem num livro. Não foi conseguido. Ficámo-nos pela dezena de textos…
Nessas crónicas passavas, com personagens figuradas, a pente fino os anos dourados da tua (e minha) infância no “maravilhoso” Rossio de Baixo, com as aventuras do “Bando”. Este período ainda marca o que vais escrevendo?
Esse período marca o que sou, hoje. Não sinto essa influência directamente na escrita. Tudo o que sou é resultado do que fui. E isso, numa segunda dimensão, influi no que escrevo. Só assim posso sentir essa interferência que falas. Os tempos do Rossio de Baixo são tempos de cumplicidade e de amizade, que ultrapassava todas barreiras – as mesmas que hoje limitam a infância das crianças que conheço. É com orgulho que recordo e falo das brincadeiras do Rossio de Baixo e sinto-me, se certo modo, singular, por fazer parte de uma geração que teve o privilégio de andar na rua até ser noite, a jogar às escondidas, ao berlinde, ao pião ou aos três pauzinhos.
Diz-me Rui, quais as dificuldades que um jovem escritor tem para publicar? Que apoios consegues para tal? Só carolice?
Eu tive oportunidade de publicar através de uma editora, mas recusei, porque vi que não ganhava assim tanto com isso. Aliás, ainda ficava a perder. Penso que o negócio da literatura está rendido ao consumismo e recuso-me a entrar no sistema. Pelo menos, enquanto não lucrar com isso (risos). O meu método é muito simples. Escrevo e entrego directamente na tipografia, que me imprime como quero e para quando quero. Pago e vou vendendo livros, com a ajuda imprescindível da minha mãe. Quando tenho dinheiro suficiente para pagar à tipografia, abrando a pressa de vender os livros e, aí, acaba por ser um processo que vai acontecendo, quase naturalmente. Vou vendendo, até acabarem.
Tens tido boa receptividade na venda dos teus livros?
Tenho vendido tudo, graças a Deus e à minha mãe. A bem dizer, graças à minha mãe e aos leitores, que Deus nunca me comprou nenhum (risos). Estou a brincar. Reconheço que é com a força Dele que a minha mão escreve. Assim até pareço o Paulo Coelho… Dá para fazer a pergunta outra vez? (risos).
Com o livro dos 75 anos dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim iniciaste-te um estilo mais de historiador do que de poeta. Gostavas de continuar a fazer trabalhos deste género?
O livro dos Bombeiros traz-me más recordações. Vou responder a tribunal e tudo… Enfim! Gosto pouco de falar sobre ele… Contudo, penso que o meu futuro passa por escrever livros desse género. Gostava de escrever a história da minha família, por exemplo. Ou fazer investigação na área das Ciências Sociais.
Quais são as tuas referências (portuguesas ou estrangeiras)?
Quando me perguntam por escritor preferido eu tenho de inventar um nome, como se já tivesse lido tudo o que escreveu. Nunca li tudo o que um autor tenha escrito, à excepção de Pedro Paixão, talvez. A haver um, será ele o meu escritor de eleição. Gosto muito do que Paixão escreve. Mas nunca fui fã incondicional de um escritor. Prefiro apontar dois ou três livros que marcaram a minha vida: “Loucura “ de Sá Carneiro; “Perfume”, de P. Suskind; “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago e “Muito Meu amor” de Pedro Paixão. Também gosto da poesia de Eugénio de Andrade e de Al Berto.
Como pessoa da cultura como avalias o panorama da oferta cultural na freguesia de Canas de Senhorim e no concelho de Nelas? O que mudarias nas politicas culturais actualmente praticadas?
Não conheço as políticas culturais adoptadas no concelho.
O que pensas do projecto da Casa da Cultura para Canas de Senhorim?
Não conheço o projecto. Contudo, é algo que se ouve há muito tempo. Penso que, a ser mais que um projecto, a ser realidade, deve-se pensar na sua sustentabilidade a longo prazo. Uma pessoa de Canas – e de qualquer lado –, antes de passar na Casa da Cultura, tem que passar na Farmácia, no Talho, na Praça, na Padaria e em muitos outros sítios. Há muito que a cultura deixou de ser de borla… Sou a favor do desenvolvimento cultural e da promoção e difusão cultural, sem dúvida. A minha formação impele-me a isso. Só que, entretanto, imaginem, em pleno séc. XXI, continuo a andar em passeios de terra batida e, muito pior do que isso, a não ter médico de família…

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