Faleceu no dia 3 de Dezembro de 2009 o Dr.Edgar Figueiredo, um homem carismático e referência incontornável no panorama político e social de Canas de Senhorim. Deixamos aqui vários testemunhos de quem com ele teve oportunidade de privar.
******
Ped
iu-me o Jornal Canas de Senhorim um testemunho sobre da vida pública do Dr. Edgar Figueiredo, na perspectiva de perceber o que dela fica para os canenses. Não é fácil escrever esse testemunho, quer pela personalidade da pessoa quer pelo condicionalismo de espaço. Daí optar por partilhar algumas das minhas memórias com os leitores do jornal, num modesto contributo para um melhor conhecimento do perfil do Dr. Edgar, como comummente era tratado e conhecido, no quadro da sua intervenção política, social e cultural.
Figura carismática. Pela sua peculiar personalidade, o Dr. Edgar possuía um carisma que lhe conferia condições natas de liderança, reconhecidas e aceites interna e externamente. Sem que alguma vez se impusesse como tal, nem por mera insinuação, mesmo que aqui ou acolá a sua forma de interagir o pudesse indiciar. Foi, indiscutivelmente, a imagem e porta-voz dos inconformismos, dos anseios e das causas da sua terra.
Se o carisma é intrínseco da personalidade, a intervenção no espaço público inteiramente dedicada às causas e aos problemas da terra fez do Dr. Edgar uma figura singular e distinta, nomeadamente nas últimas décadas do século passado. As suas decisões e indecisões foram sempre subordinadas a um objectivo central – a (re)criação do concelho -, porque, dizia, “todos os nossos problemas advêm de não sermos concelho, donde só se resolverão com a sua criação”.
Independente para ser livre. No pós-25 de Abril de 1974, já então como advogado conceituado no meio forense, não obstante o pouco tempo de exercício, tinha todas as condições para uma carreira política de sucesso. Mas a paixão que dedicava à advocacia e à sua terra faria abortar todo e qualquer ensejo que nesse sentido se apresentasse. Como se confirmou poucos dias depois da Revolução Abrilista. Por todo o país os democratas organizavam-se, plenários populares destituíam as autarquias do Estado Novo e para o seu lugar elegiam pessoas da sua confiança. Em 11 de Maio, no Cineteatro de Nelas a transbordar de um povo entusiasmado pela liberdade que a cada momento a transportava para coisas inimagináveis ainda há poucos dias atrás, ia-se fazer História, isto é, o povo do concelho ia, pela primeira vez em 50 anos, decidir do destino da sua Autarquia. E num enorme fervor anti-fascista e democrático o Dr. Edgar foi aclamado Presidente da Comissão Administrativa que iria substituir a Câmara Municipal Corporativa.
Mas o Dr. Edgar não estava presente, estava para Lisboa. Aquando do seu regresso foi informado da decisão popular e convidado a aceitar o cargo de Presidente. Porém, simplesmente, recusou. E porquê? “Porque se tivesse aceitado nunca mais teria legitimidade e autoridade para continuar a lutar pela criação do concelho de Canas”. Deste modo, o que para muitos não passara de uma fuga a responsabilidades fora tão-só, afinal, uma decisão consciente em vista a preservar a sua independência do poder municipal de Nelas e dos grupos políticos que não tardariam a tomar conta do espaço político. Mas também um evidente desprendimento do poder que emergia, sem que isso representasse menor interesse pela vida política ou menor disponibilidade para a intervenção na vida pública, como desde logo demonstraria pelo seu empenhamento em lançar as bases organizativas do Movimento Democrático na freguesia, promovendo e levando a efeito reuniões de esclarecimento democrático das populações. E neste contexto surgiria sem constrangimentos de qualquer ordem como líder natural do movimento autonomista que eclodiu em meados de 1975. Embora logo divergindo da maioria da Comissão de Moradores então criada, contrapondo a uma pretendida desconcentração técnica e administrativa de alguns serviços municipais a apresentação ao Governo Provisório de um Caderno Reivindicativo em vista à criação do concelho. Teve seguidores, mas não a vontade efectiva da maioria para essa via, acabando o movimento por lentamente se diluir.
Desalinhado polémico e mordaz. Do “fragor revolucionário” surgiu Tribuna de Canas, jornal lançado por César Lopes e dirigido pelo Dr. Edgar. Direcção que abandonaria passado pouco tempo, por discordar que, à sua revelia, o jornal incluísse artigos que considerava reaccionários e fascistas.
No centro das polémicas não deixa ninguém indiferente, no recrudescer da luta político-partidária passa por ser o alvo privilegiado dos ataques de quadrantes adversários, alguns dos quais conhecidos simpatizantes do salazarismo. Daí jocosamente comentar que “os que no tempo da outra senhora diziam que eu era um perigoso anti-fascista agora consideram-me um perigoso social-fascista”.
Era conhecida a sua simpatia pelo Partido Comunista, muito embora a sua identificação fosse com o MDP/CDE. A isso não foi estranha a sua passagem por Montemor-o-Novo e Alhandra, mas foi decisivamente a crise académica de 1969 que ajudou à maturação da sua consciência democrática e substrato ideológico. E nessa medida, apesar da sua condição de aluno externo, em solidariedade com o movimento democrático estudantil não compareceu aos exames, com os consequentes atrasos que essa posição lhe acarretou na conclusão do Curso de Direito e os riscos a que passou a ficar exposto. No contexto do estudante, lembram as suas habituais tardes no mítico Café Rossio estudando os “calhamaços”, com o cigarro definitivo entre os dedos, dando fé de tudo e de todos, fazendo notar a sua presença prazenteira, mas também irónica e mordaz. Em 1972, concluiu com brilhantismo o seu Curso de Direito e depressa iniciou uma bem sucedida carreira de advogado.
A sua proximidade ao MDP, e ao PCP, nunca o inibiu na sua liberdade de optar e de agir. Em dois momentos do ano de 1976 isso ficou patente: No apoio à candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, fortemente hostilizada pelo Partido Comunista, e ao encabeçar uma lista dos GDUP´S[1] às eleições para a Assembleia de Freguesia. Mas também em relação àquele agrupamento ficou evidenciada a sua independência, ao promover uma campanha a favor da abstenção na votação para a Câmara não obstante a candidatura àquele órgão municipal da sigla por que se candidatava à Freguesia. A lógica de um homem livre e desalinhado que se exteriorizava sempre que tinha a oportunidade de colocar a jogo a causa do concelho de Canas. E que teria consequências no futuro político, a maior das quais a conquista da Câmara pelo PPD, uma possibilidade então de todo imprevisível. Quanto aos GDUP’S, tendo em conta a pouca expressão eleitoral dos grupos componentes, teve um razoável resultado de 20%, com dois eleitos. Que se deveu, grosso modo, ao carácter unitário e independente de esquerda da candidatura e, sobretudo, ao carisma da sua figura cimeira. Que, no quadro plural da Assembleia eleita, se consubstanciaria na sua eleição para presidente daquele órgão autárquico, numa mostra inequívoca do prestígio e do respeito que desfrutava entre os grupos e individualidades políticas e sociais da freguesia.
Mas o desaire eleitoral deixou-lhe uma desilusão perene. Porque, na sua óptica, o povo dividira-se pelos partidos políticos em prejuízo da corrente pró-concelho, mas, também, por não ter sido eleito presidente da Junta, uma derrota pessoal. Como se depreende de um seu desabafo, ao mesmo tempo amargo e sarcástico, recusando ser o candidato do Movimento à Junta, em 1985: “Não, não volto a ser candidato a presidente da Junta da minha terra. Fui uma vez e o povo não me quis, entendeu que eu não tinha categoria para ser presidente da Junta”.
Em nome da coerência de quem não abdicava de lutar pelo concelho para a sua terra rejeitara ser o primeiro presidente da Câmara depois do 25 de Abril para, em nome dos mesmos princípios, se candidatar ingloriamente a presidente da Junta. Ou seja, o Dr. Edgar recusara o poder municipal que lhe foi oferecido numa bandeja para se candidatar a presidente da Junta da sua terra. Se em vez de grupos minoritários da franja do espectro partidário integrasse um dos grandes partidos da área do poder certamente que o sucesso eleitoral seria equivalente ao seu prestígio social, seria um potentado eleitoral, o cacique tradicional. O que não era compaginável com a sua maneira de ser, daí o seu escárnio: “O povo não vota nas pessoas, vota onde o mandam, nos emblemas. Se levarem o Mário P… até ele ganha eleições. E não faria pior que os outros”.
Líder natural. Apesar da desilusão pelo povo se deixar ludibriar pelo eleitoralismo e pela “partidarite” jamais virou as costas à sua terra, muito especialmente quando entrava em jogo a questão do concelho. E a primeira metade da década de 1980 revelou-se particularmente fértil em acontecimentos. Em Março de 1982, o CDS apresenta na Assembleia da República um projecto de Lei para a criação do concelho de Canas de Senhorim. Logo se organiza um movimento pró-concelho, que começou por ser uma congregação de partidos. Em 2 de Agosto, num teste à capacidade de mobilização e disponibilidade para a luta, foi organizada uma jornada de protesto contra a não paragem dos comboios rápidos e a não atribuição do código postal. Mas as verdadeiras razões decorriam das pretensões municipalistas e da necessidade em enviar um sinal para o Parlamento. Vivia-se um ambiente pré-conflituoso que se fermentara na degradação das relações com a Câmara, acusada de não prestar a atenção devida à freguesia, e na pujança das actividades económicas de Canas, nomeadamente a CPFE e a ENU então no seu período áureo. Época em que se cimenta de forma natural a figura de liderança do Dr. Edgar, a imagem pública do Movimento a quem deputados, governantes e dirigentes políticos tratavam com deferência.
Entre 1986 e 1989, volta a presidir à Assembleia de Freguesia, depois do Movimento, num teste de legitimação política, ter-se candidato e vencido as eleições de 1985, em confronto eleitoral directo com o PS e PSD. Período marcado pelo encerramento da CPFE que fortes constrangimentos causou, mas também pela conquista do alvará de rádio para a RAC, no âmbito de uma cooperativa de que fora co-fundador em princípios de 1985 com a ideia inicial de relançar o jornal Tribuna de Canas. Período durante o qual se assiste ao reforço do seu prestígio externo. Em 1987, a Junta participa na fundação da ANAVIL – Associação Nacional de Vilas, vindo o Dr. Edgar a integrar o seu corpo dirigente. Organização que se transformaria no núcleo fundador da ANAFRE – Associação Nacional de Freguesias, criada em 1988, a cuja Direcção eleita o Dr. Edgar é membro proeminente (eu próprio fui eleito para o Conselho Geral). Nos primeiros anos de 1990, é criada a LIFUCO – Liga dos Futuros Concelhos, em que o Dr. Edgar volta a ser figura de referência.
O Dr. Edgar foi, pois, a imagem de Canas no exterior, uma figura sempre respeitada e uma voz que se fazia ouvir nas diversas instâncias do poder e da comunicação. Um autêntico apóstolo da identidade canense.
Fim de ciclo. Viveu com o mesmo entusiasmo e entrega de sempre o processo de criação do concelho de finais do século passado. Mas os tempos eram outros, como outros eram os protagonistas que se perfilavam. E o Dr. Edgar passou a figura incómoda, uma sombra a algumas ambições, sendo lentamente afastado até uma inexplicável ostracização. Não obstante, em mais um assomo de paixão pelas coisas da sua terra, assumiu o esforço de viabilizar a rádio que havia ajudado a fundar e a legalizar. Porém, depois de avultados investimentos realizados, os mesmos que o haviam afastado do Movimento recusaram-lhe a prometida concessão da rádio, destinando esta a um fim que permanece em absoluta obscuridade. A absurda e incompreensível hostilidade e marginalização foi ao ponto de este mesmo jornal, entre dezenas de entrevistas e de entrevistados, não haver conseguido espaço para o Dr. Edgar.
Um fim de ciclo injusto e amargo. E, acima de tudo, de uma tremenda ingratidão.
Homem do povo. Socialmente era pouco dado a salamaleques, era um homem do povo que com ele se misturava e com ele convivia. Em 1975, aderiu à moda “revolucionária” da época, deixou crescer as barbas, que não mais largaria, a que a sua tradicional boina espanhola dava ares de “guerrilheiro de Sierra Maestra”. Esta fisionomia, um certo ar boémio, a viatura utilitária que tanto o transportava para o tribunal como por um trilho com destino a um pesqueiro, faz dele uma figura popular inconfundível. Que se desdobra em “vai e vem” pelos diversos espaços de convivência social – cafés, tabernas, tascas – onde brincava no seu conhecido tom irónico e jocoso e fazia os seus pequenos comícios. Mas também onde dava um conselho jurídico ou uma “consulta” a um cliente que das aldeias, a muitos quilómetros de distância, aqui vinham procurar os seus serviços de causídico: “Então quanto lhe devo Sr. Dr.? Oh homem, beba um copo e não pense nisso!”.
Outro fosse, com a sua inteligência, perspicácia e dom para a litigância, mas “bem-posto” e frequentador dos sítios de elite, com pouca preocupação social e pouca sensibilidade humana, que fortuna faria, que posição social ocuparia, quanto adulado e reverenciado na sociedade seria.
No exercício da sua actividade casos houve que suscitaram controvérsia e, injustamente, a habitual acusação “estes tipos são todos iguais, por dinheiro vendem a alma ao diabo”. O que nada atrai noutro qualquer advogado no Dr. Edgar tudo é escrutinado, ele é um canense genuíno e popular, está no centro das atenções, não pode falhar nem desiludir. Daí um bruaá quando se soube que o Dr. Edgar seria o defensor de um ex-informador da PIDE, um espanto só comparável à incompreensão e à indignação de algumas das vítimas, e familiares, do informador em causa. Mas não se julgue que foi um caso simples para o Dr. Edgar, “foi o trabalho que mais me custou fazer na minha vida de advogado que aceitei por razões humanas”. Acedeu aos apelos da mãe, a quem a [esposa] do [informador] procurara para lhe pedir que ele [Dr. Edgar] aceitasse ser o advogado defensor do marido. Depois de uma primeira recusa, “minha mãe, não me peça isso, esse indivíduo fez muito mal a algumas pessoas, denunciava pessoas, não posso nem quero fazê-lo”, a mãe insistiria, apelando ao coração: “Meu filho, sou eu que te peço encarecidamente, fá-lo por mim e pela [esposa] que nos acudiu para tu poderes vir a este mundo”. Não podendo ignorar o apelo da mãe, bem como de quem o ajudara a nascer, acabou por ceder embora com condições: “Está bem, diga à senhora […] que o faço por atenção a si e a ela, mas que não aceito um tostão que seja de honorários”.
Revelação tardia. Sabia-se que fora um homem de teatro. São conhecidas peças representadas no Teatro do Cruzeiro, na década de 1950. Com guiões que escrevia conjuntamente com António João Pais Miranda. Algumas sátiras sobre os problemas e carências da terra chegaram aos nossos dias, elas ajudaram a forjar uma consciência cívica reivindicativa e a identidade canense. Como está bem presente na canção cantada pelo Dr. Edgar:
Terra antiga
Bons solares
Ricos museus em ruínas
Tem no centro
Um monumento
O balcão das quatro esquinas
Muitos buracos na estrada
Terra abençoada
Isto assim, é Canas
Urinóis ultramodernos
Cheirinhos eternos
Isto assim, é Canas
Numa outra peça, “o teatro das 4 esquinas”, fazendo de “bandido”, o momento em que é abatido a tiro provoca a reacção espontânea de um seu aluno presente na assistência: “Minha mão, minha mãe, amanhã não há escola, mataram o senhor professor com um tiro”.
Há poucos anos surpreendeu com a revelação de uma faceta desconhecida, a de poeta. Na verdade, no jornal Escola Remoçada, contam-se para aí cerca de sete dezenas de poemas, escritos desde 1952. A que regressaria nos seus últimos tempos de vida, como sendo os da redescoberta poética, com a ideia de poder dar a conhecer em livro uma vocação que se manifestara ainda em jovem, testemunhada pelos colegas do Magistério Primário, mas partilhada durante anos somente com os colegas professores nas páginas do seu jornal. Periódico este que lhe premiaria, em 1966, uma narrativa sobre o Ribatejo.
Que fica? Como se constata, estamos perante um homem notável de cultura, de um pedagogo que recusava ser “professor primário”, porque “primário era o ensino”, mas sim “professor do ensino primário”, de um causídico exímio (por exemplo, nos anos de 1970 evitou administrativamente que o GDR caísse na 2ª Divisão depois de uma época desportiva mal sucedida), alguém que dedicou a sua intervenção pública e cívica exclusivamente às causas e às instituições da sua terra.
Edgar Figueiredo foi um Canense Livre
Fica da sua intervenção pública um contributo decisivo para a formação de uma identidade canense, cimentada na sua História Municipalista; de uma consciência cívica dos direitos sociais e políticos; e de um património histórico-cultural.
Um exemplo para recordar e uma memória para honrar, um dos mais notáveis filhos de que Canas de Senhorim se deve orgulhar.
Canas de Senhorim, 12.Jan.2010
Carlos Jorge Mota Veiga
(Publicado na Edição nº 134 do Jornal "Canas de Senhorim")
Foto Canas em Peso
Mais