Canas OnLine

A Vila de Canas de Senhorim é uma terra tipicamente beirã. Situada entre a Serra da Estrela e a Serra do Caramulo é ladeada pelos rios Mondego e Dão. A sua história remonta a tempos milenares, conforme documentam os diversos vestígios pré-históricos e romanos existentes. Foi-lhe concedida carta de foral em 1196 e em 30 de Março de 1514 o rei D. Manuel I confirma o privilégio através de novo foral, o qual confere à vila o estatuto de concelho. Em 1866 é extinto o concelho, circunstância nunca aceite pela população que ao longo do tempo tem lutado pela sua restauração >>>

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Data e HoraQuarta-feira, 08 de Setembro de 2010
Sobre Canas de Senhorim
 Canas de Senhorim fica situada no coração da Beira-Alta. Localizada no planalto desenhado pelos maciços das Serras da Estrela e do Caramulo é ladeada pelos rios Dão e Mondego. A abundância de água, os terrenos férteis e uma geografia estrategicamente defensiva contribuíram para a fixação das populações ao longo dos tempos. Os vestígios mais antigos dessa ocupação remontam a 6000 anos A.C., idade da Orca das Pramelas,  monumento tumular do período megalítico descoberto em 1985 por Horácio Peixoto. Mas são inúmeros os indícios arqueológicos encontrados, desde elementos de influência romana (que indiciam a existência de pequenas villas romanas) até aos túmulos medievais incrustados em afloramentos rochosos.
O primeiro documento a referir Canas de Senhorim data de 1155(1) e em Novembro de 1186 D. Sancho I doou-a por carta de couto(2) ao Bispo de Viseu. Por morte deste, o Cabido de Viseu(3) outorgou em 1196 carta de foral aos seus moradores e D Manuel I, a 30 de Março de 1514, confirma o privilégio através de novo foral(4), o qual haveria de confirmar o estatuto de concelho à localidade. Por volta de 1868, por ocasião da revolução da Janeirinha(5) o concelho é extinto, situação nunca aceite pela maioria da população.
Na sua génese arquitectónica podemos encontrar ainda traços desse passado municipalista. O povoado central é marcado pela robustez que o escurecido granito beirão imprime às casas brasonados oitocentistas que ombreiam harmoniosamente com outras de cariz mais popular. Neste aglomerado histórico-urbanístico  destaca-se o velho Largo do Pelourinho, reminiscência concelhia, e dele divergem a Rua Abade Dourado, a Rua Keil do Amaral e a Rua do Paço.
Na Rua Abade Dourado ergue-se um imóvel de belo requinte arquitectónico, outrora pertencente à ilustre família da D. Ester Figueiredo Santos , cuja construção deverá remontar aos finais do século XVIII. Ao fundo da rua abre-se o Largo da Igreja, enquadrado pela Igreja Matriz (São Salvador) e pelo sumptuoso solar da família Abreu Madeira . Do largo adivinham-se os bairros antigos do Carvalho e do Casal , este último mais afastado, onde podemos observar a fachada exterior da Capela de S. Caetano (1694), entretanto encerrada ao culto. Mais acima, na Rua do Paço , a cerca de cem metros do Largo do Pelourinho, situa-se o Portal da capela do S. Bartolomeu , antigo celeiro do Cabido da Sé de Viseu(6).
Arrematando o centro histórico de Canas damos conta da Rua Keil do Amaral, verdadeira jóia urbanística, integrando  um vasto conjunto de imóveis de considerável interesse arquitectónico, dos quais se destacam as ruínas da capela mandada erigir por Dionísio de Figueiredo (1597), a casa da família Madeira Lobo (séc. XVII), a casa do filho do Visconde de Pedralva (séc. XVI-XVII), a casa do Visconde de Pedralva (séc. XVIII), actualmente habitada pelos descendentes da ilustre família Keil do Amaral, a Casa do Cruzeiro (séc. XVII), residência senhorial, pertença da família Abreu Madeira e a casa da família Vallejo, residência solarenga tipicamente beirã (princípios do séc. XIX).
Passeando por este núcleo histórico podemos com alguma imaginação escutar ecos de memórias medievais, fantasiar sobre lendas de moçárabes e cavalos lusos(7), vislumbrar fidalgos e senhores e interiorizar as vivências de um povo, o povo de Canas de Senhorim.

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Canas de Senhorim foi até ao início do século XX predominantemente rural, rica em vinho, milho, trigo, azeite e produtos hortícolas. O Abade Luiz Coelho do Amaral, em 1758, disse aos interrogatórios paroquiais: “Os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância são pão, milho e vinho”(8).  Porém, a partir de 1910 sofreu uma profunda transformação económica e social: inicialmente atraiu a indústria mineira, fruto dos filões de urânio descobertos no local da Urgeiriça (9) - mais tarde nacionalizada sob o nome de Empresa Nacional de Urânio (ENU) - e, dada a vantagem no aproveitamento dos excedentes de energia das centrais hidroeléctricas da Serra da Estrela, o potencial industrial desenvolveu-se com a instalação da Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos (CPFE ) em 1917 e da Companhia União Fabril (CUF) nos anos 30. Mas só na década de 50, ultrapassadas as contingências da Segunda Guerra Mundial, estas empresas alcançaram níveis de exploração e produção assinaláveis. Laboravam 24 horas por dia e empregavam cerca de mil trabalhadores, operários especializados na sua maioria, mas também quadros técnicos e dirigentes, muitos dos quais deixaram traços indeléveis no tecido social e toponímico da vila.
 O fluxo das matérias-primas e o escoamento da produção deste pólo industrial, o mais importante de todo o interior português, era feito através da linha da Beira Alta. A estação ferroviária de Canas era em 1975 a terceira, a nível nacional, em volume de cargas e descargas, e a vila liderava o distrito com o maior rendimento per capita.
Esta dinâmica industrial projectou a vila para patamares económicos invejáveis, o comércio e os serviços cresciam e as famílias prosperavam. A intensa vida social propiciava a existência de uma forte componente associativa, através da qual os canenses desenvolviam uma diversidade de actividades culturais, a maior parte das vezes fomentadas pelas próprias empresas onde trabalhavam, associações essas que, mau grado o declínio entretanto verificado, ainda hoje sobrevivem.
Canas de Senhorim foge assim no século XX um pouco à tradicional catalogação das terras beirãs. Localizada num meio rural, onde impera a vinha (zona do Dão), onde a tradição radica no gado ovino e caprino (Serra da Estrela) e o clima e os terrenos são propícios à actividade agrícola, as suas gentes não vivem da terra ou do gado, o seu passado industrial formou operários, não camponeses, ainda que muitos cultivem pequenas parcelas de terreno como complemento à sua economia doméstica.
Canas de Senhorim transformou-se numa terra industrial, uma terra de mineiros e operários, economicamente viável, culturalmente animada, rica em colectividades e outros pólos de lazer. Datam dessa altura a criação da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários (12/01/1931), o Grupo Desportivo e Recreio (06/01/1934) e os CAT (Centros de Alegria no Trabalho). Foi igualmente por volta dos anos trinta que o carnaval ganhou a visibilidade que hoje lhe é reconhecida. Se há terra com um sentido associativo e bairrista por excelência Canas de Senhorim é uma delas. Também os bairros têm as suas associações, estas especialmente vocacionadas para a organização da festa de eleição dos canenses - o carnaval .
O carnaval não deixa um único canense indiferente, e o “vírus” apanha-se ainda na barriga materna, que por artes de uma tradição secular se propaga como se de uma herança genética se tratasse. Desde pequenos que somos imbuídos no espírito carnavalesco canense, aderindo, de acordo com o local de nascimento, ao bairro do Rossio ou do Paço. É da rivalidade destes dois bairros que nasce a festa e a fantasia. Preservando o cariz popular que o torna tão genuíno, apresenta características muito próprias, enraizadas na tradição etnográfica do Entrudo, como os pisões(10), as paneladas(11), os enfarinhanços(12), as marchas populares, as comadres, os mascarados, a Segunda-Feira das Velhas(13), a “crispação” bairrista, e outras, mais recentes (1940), como a profusão de carros alegóricos que integram os corsos e os grupos organizados de foliões. Assenta tradicionalmente numa rivalidade saudável entre os bairros do Paço e do Rossio, que tentam superar-se um ao outro competindo na concepção dos carros alegóricos, na fantasia dos trajes, na “afinação” das vozes e, clímax do evento, no derradeiro despique , confronto final que ocorre na terça-feira no centro da vila, única vez que as marchas se encontram frente a frente, numa apoteose de euforia e excessos.

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Não obstante o desenvolvimento iniciado na década de 50, os postos de trabalho das duas principais unidades industriais (ENU e CPFE) estabilizaram e o tecido empresarial de Canas não absorveu todos os que procuravam emprego. Assim, por volta dos anos 70, deu-se um grande fluxo de emigração para França e Alemanha, facto relevante quando analisamos a evolução demográfica da localidade. Aliás, este fenómeno é recorrente, já no início do século XX, entre 1910 e 1930, por altura da primeira guerra mundial, ocorreu um grande surto de emigração, desta vez para o Brasil.

 

Com a revolução dos cravos, a 25 de Abril de 1974, e a oportunidade que as circunstâncias políticas propiciavam, retomou-se uma velha aspiração canense: a restauração do concelho. A maioria dos canenses já tinham uma forte consciência política, fruto da sua condição operária e da cumplicidade com alguns quadros técnicos mais bem informados. Não era à toa que Canas era considerado o “Barreiro da Beira Alta”(14) , a comunidade era essencialmente proletária e o anterior regime cuidava de a manter debaixo de ollho, uma atitude algo patética, pois de maneira geral todos sabiam quem eram os informadores da PIDE.
 A luta pela restauração do concelho só viria a dar alguns frutos passados 30 anos, a 01 de Julho de 2003, quando a Assembleia da República aprovou os normativos legais que permitiam a constituição do Município. Porém, passado um mês, essa aspiração viria a ser negada aos canenses pelo inusitado veto presidencial. O então presidente da república Jorge Sampaio ganharia assim em Canas o epíteto de “Aldra”, por ter traído a posição inicialmente favorável à criação do concelho, através do chumbo dos diplomas que o viabilizariam.
Com o declínio da indústria canense e os despedimentos em massa (década de 80) poder-se-ia prever que os seus habitantes encontrassem no sector agrícola uma solução de sobrevivência, porém, a sua vocação operária aliada à perda de competitividade dos agricultores portugueses face aos seus congéneres europeus(15), determinou que os canenses procurassem trabalho por outras paragens. Inevitavelmente rumaram para zonas urbanas (ou suburbanas), onde as suas qualificações fossem requeridas e as condições de vida melhoradas. Empregaram-se em fábricas, serviços, no comércio, na construção civil, sectores bem característicos do meio urbano, onde a dinâmica cosmopolita gera velhas e novas oportunidades.
A década de 80 foi um período negro na vida dos canenses, só ultrapassado com o advento do betão. Os novos acessos (IP3, IP5, IC12) e uma política regional de incentivos ao investimento lograram relançar o parque empresarial da Beira Alta, e, Canas de Senhorim, ainda que afastada politicamente desse processo, acabou por voltar a fixar a sua população dada a proximidade da oferta de emprego(16).

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O século XXI traz novos desafios aos canenses: o desinvestimento na freguesia e a crise financeira dos mercados da Europa comunitária não são animadores para uma vila que teima em manter uma dinâmica de auto-suficiência, ainda por cima perante cenários políticos regionais e nacionais cada vez mais adversos. Canas tem potencial humano capaz, várias áreas aonde é possível de forma sustentada alavancar a economia, multiplicar serviços, oferecer postos de trabalho, manter a qualidade de vida e fixar a população. E tem essencialmente um passado de que se orgulha, um presente de luta e motivação e uma vontade férrea em projectar e consolidar o seu futuro, assim a deixem.

 


(1) «in villa de Cannas que est in territorio de Seniorim». (Livro Santo de Santa Cruz, Ed. Leontina Ventura, Ana Santiago Faria, Coimbra, 1990, N.º 201).
(2) Benefício concedido pelo rei como recompensa de serviços ou por necessidade de povoamento.
(3) Colégio de cónegos presidido pelo Bispo da cidade de Viseu.
(4) Documento régio ou senhorial que estabelece os foros (direitos, deveres, liberdades e garantias) dos povoadores ou habitantes de uma terra.
(5) Movimento contestatário que eclodiu a 1 de Janeiro de 1868 e que levou à formação de um novo governo, liderado por António José de Ávila, Duque de Ávila.
(6) Em 1514 Canas recebe o seu foral novo, mas ainda como terra sujeita ao pagamento de certos direitos reais ao Cabido de Viseu. Os habitantes tinham de pagar ao Cabido um oitavo do pão e do vinho e uma pequena porção de linho. Esses produtos eram arrecadados no celeiro do Cabido (Casa do Cabido).
(7) Referência a uma lenda da qual se retira a justificação para a presença de dois cavalos brincões no brasão de Canas de Senhorim.
(8) Dicionário Geográfico, N.º88, fls. 616, Torre do Tombo.
(9) As minas da Urgeiriça (1912-1992) confinam a norte com Canas de Senhorim e foram exploradas a partir de 1912, primeiro a título particular, com administração inglesa, e a partir de 1951 como empresa nacional (Companhia Portuguesa de Rádio). Tiveram outras designações, como Junta de Energia Nuclear (1962) e Empresa Nacional de Urânio (1976).
(10) Pedra pendurada à fechadura das portas que é accionada por um cordão à distância, com a intenção de provocar o visado.
(11) Panela de barro velha com bugalhos ou areia que se atira para dentro das casas pelo carnaval.
(12) Prática antiga que se usa na segunda-feira das velhas (2ª feira de carnaval) que consiste em os rapazes esfregarem com farinha todas as moças solteiras que saírem à rua antes do meio dia.
(13) Ritual em que se ensaia uma espécie de afrontação mútua levada a cabo por populares de ambos os bairros, mascarados de velhas.
(14) Citando José Manuel de Oliveira Mendes, doutorado em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, na especialidade de Sociologia da Cultura, do Conhecimento e da Comunicação, em “Uma localidade da Beira em protesto: memória, populismo e democracia”.
(15) Em 1986 Portugal entra para a Comunidade Económica Europeia (CEE). A livre circulação de produtos entre os países aderentes alarga os mercados e torna-os muito mais competitivos. Mesmo com os subsídios destinados à modernização e requalificação da produção agrícola, a agricultura praticada em Portugal sofre um grande revés e muitos dos pequenos e médios agricultores optam por outras actividades.
(16) A população de Canas de Senhorim perdeu 25% da sua população entre 1981 (4644 habitantes) e 1991 (3600 habitantes). Actualmente estabilizou nos 3500 habitantes.

 


BIBLIOGRAFIA
Canas de Senhorim, História e Património, JFCS 1996
Casas Solarengas de Canas de Senhorim, contibutos para a sua análise e valorização, Evaristo João de Jesus Pinto
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